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Meu concreto amado

Atualizado: 18 de jun. de 2018

Uma breve história sobre o segundo produto mais consumido do mundo


Semana passada a Veja lançou mais uma daquelas matérias que atiça a curiosidade de qualquer entusiasta da construção civil: “por que o concreto romano é mais resistente que o concreto moderno?” A matéria é baseada em um artigo publicado pela American Mineralogist, que tem foco bem grande na reação dos componentes químicos do concreto, e como os romanos já naquela época haviam conseguido criar um material duradouro e resistente. Mas pra entender essa história a gente precisa viajar um pouco no tempo, mas não sem antes entender melhor a composição do nosso concreto amado.


Concreto é o segundo item mais consumido no mundo

Concreto é uma pedra artificial, composta basicamente de 4 componentes: Aglomerante (cimento ou cal ), Agregado Graúdo ( Brita/pedra), Agregado Miúdo ( Areia ) e água. Ao produto da mistura de Aglomerante, Agregado Miúdo e água se dá o nome de Argamassa. Já as estruturas convencionais modernas, quando da utilização de concreto, são feitas de: Concreto Armado, Concreto Protendido ou Pré- Moldados de concreto. O concreto se dá pela reação química e mecânica dos seus componentes, que produzem uma massa porosa de alta resistência. Os poros são produzidos pela evaporação da água em uma reação que libera calor (exotérmica), e sua resistência aumenta conforme a idade do concreto, sendo a resistência de cálculo normalmente baseada nos 28 dias.


Concreto armado nada mais é do que um material estrutural onde ocorre a solidarização entre concreto e o aço, dada pela adição do concreto simples com uma armadura passiva. Já o concreto protendido funciona de forma análoga, mas com uma armadura ativa, que é dada pela protensão ou “pré-tensão” normalmente causada por cabos ou cordoalhas submetidos a uma força de tração. Essa armadura atua para reduzir ou até mesmo eliminar as tensões que podem surgir quando o concreto começar a sofrer os efeitos do carregamento sob o qual está submetido. Por fim temos o concreto pré-moldado, que normalmente é um concreto protendido, feito em centrais industrializadas, especializadas nessa técnica, que fornecem peças padronizadas para a construção.


Perceba portanto que existe uma diferença entre as estruturas modernas e as romanas, uma vez que as estruturas modernas se valem do solidarização do aço, e as romanas usavam apenas concreto simples. E ainda assim não estamos falando do mesmo tipo de concreto…


Lembra-se que mencionamos que o aglomerante pode ser cimento ou cal? Atualmente nós usamos o Cimento Portland, sendo mais comum o CP II E 32. Nossos antepassados romanos usavam um concreto com Pozolana no lugar da cal. Pozolana nada mais é do que uma cinza vulcânica, da Bahia de Napoli na Itália, na região de Campo Flegrei, mais especificamente na cidade de Pozzuoli, vizinha a Bacoli. Essa cinza melhorava a resistência das argamassas de cal e areia, mesmo quando submetida às marés e à ação do tempo, e eram consideradas um bem precioso do império romano. Mas não era uma exclusividade pois, sabe-se que os gregos de Santorini também utilizavam cinzas vulcânicas para suas construções… Uma vez que Napoli foi fundada por gregos não é difícil suspeitar que a técnica romana talvez seja nada mais do que uma herança de seus fundadores gregos…



Lago D'averno, região de campo flegrei.


Acontece que a região é limitada, e e nem sempre se conseguia a extração de tais cinzas. Como solução por vezes os romanos utilizavam de forma análoga produtos provenientes de barro cozido, como tijolos, vasos etc. Com o declínio romano também ocorreu o declínio da utilização da Pozolana, e consequentemente da qualidade das argamassas, fato que só melhorou a partir do século XVII. E foi em 1726 que nosso primeiro Engenheiro Civil, John Smeaton, percebeu que os calcários com adição de argila apresentavam superioridade aos calcários puros para a fabricação dos aglomerantes.


Porém foi apenas em 1824 que surgiu o Cimento Portland, criado por Joseph Aspdin, um fabricante de tijolos do condado de York, que atribuiu esse nome graças à aparência que o material produzido tinha com as pedras da região de Portland. O “Cimento" de Joseph Aspdin era na verdade uma Cal Hidradata artíficial, mas o processo utilizado por ele deu origem do cimento como conhecemos hoje em dia, é por conta dele que o cimento ainda recebe o nome de Portland.


Talvez a grande evolução do cimento não tenha sido no aspecto da resistência, mas sim na produção e aplicação do material. Smeaton e Aspdin buscavam soluções práticas que criassem um material resistente, de fabricação econômica e que pudesse atender às demandas que lhes eram impostas. Vale lembrar que estamos falando de uma época de revolução industrial e as cinzas pozolanicas são um bem finito e caro, do qual a indústria não pode ser dependente.


Ainda assim ela é utilizada no cimento de hoje em dia. Lembra que eu disse que o cimento mais utilizado é o CP II E 32? CP significa Cimento Portland, os algarismos romanos representam o tipo de cimento, a letra representa qual tipo adição e o número representa a resistência do concreto à compressão aos 28 dias.