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Touch Base: sua conexão com o time

Atualizado: 22 de dez. de 2022

Uma das dores mais frequentes de um Agile Coach é garantir que o time esteja indo na direção correta. Por vezes estamos lidando com diferentes tipos de maturidade, cada uma indo em direção a um objetivo diferente, são backgrounds diversos e experiências diversas que por vezes se sobressaem, mas que precisamos alinhar para um mesmo objetivo. Embora alguns papeis como Scrum Master e Product Owner possuam funções bem definidas, e rituais bem conhecidos e difundidos no mercado, o Agile Coach por vezes se vê perdido em meio ao mundo de possibilidades e formas de guiar o time.


Durante o tempo que vivi e trabalhei na holanda tive dois mentores que me marcaram muito: Hans e Pascal, o primeiro era uma mentor educacional, mas que me deu um caso prático e um trabalho para resolver. O segundo um mentor profissional, que meu deu um caso teórico, que envolvia grandes estudos para sua resolução. O quê ambos tiveram em comum foi que nenhum deles me disse como eu deveria resolver o problema, ou o quê eu deveria fazer para resolve-lo. Muito pelo contrário, me disseram apenas o porquê escolheram aquele desafio e como aquilo iria ajudar no meu desenvolvimento.


Hans é um senhor bem peculiar, possui lá seus 50 anos, mora há 17km do seu trabalho, e vai de bicicleta todo santo dia trabalhar. É chefe de departamento, e faz questão de almoçar com os alunos. Durante todo o tempo que passei com ele tenho certeza que falei muito mais do que ouvi. Suas perguntas eram precisas, e sua comunicação extremamente ativa. O problema que ele me ofereceu era algo até então novo: como projetar uma rede de abastecimento de água para uma cidade que está diminuindo de tamanho.


Eu não conhecia nada de hidráulica, enquanto ele era um mestre no assunto, eu não sabia nada de abastecimento de água, e ele tinha anos de experiência. Durante nossa primeira conversa ele me disse: "estou louco para aprender com você como resolver esse problema" eu respondi dizendo que eu não fazia a menor ideia por onde começar, e ele sorriu dizendo: "eu também não, isso não é empolgante?".

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Hans provavelmente gastou 8 a 12 horas ensinando para mim alguns conceitos básicos, mas eles foram divididos em pequenos pedaços. Ele nunca me dizia o todo, sempre me deixava com a pulga atrás da orelha, eu sempre sabia que na próxima ele traria algo novo, algo a mais. A parte mais divertida era que ele sabia o estágio onde eu estava, e em cada encontro ele me mostrava um novo passo que eu poderia dar em busca da minha solução.


O mesmo aconteceu com Pascal, muito mais jovem que Hans, e porque não, muito mais louco. Pascal sempre aparecia para as reuniões extremamente descabelado, e sua cabeça fervilhava de ideias - talvez por isso tivesse tanta dificuldade com os penteados. No caso de pascal o desafio era implantar gerenciamento de serviços para uma familia de 5 pessoas: o local mais improvável para se aplicar fluxos processuais e boas práticas de ITIL, se quer o número de pessoas faria sentido para a utilização das boas práticas, é como aplicar lean construction para a troca de um piso residencial. Até vai, mas parece um canhão matando uma mosca.


Novamente eu não sabia por onde começar, e embora o Pascal já estivesse calejado de aplicar esse mesmo exercício com diversos consultores, fez questão de me explicar que não havia resposta correta, mas sim que estava mais preocupado em ver o "quão fora da caixa eu conseguiria pensar". Era um exercício para se trabalhar analogismos, e começamos a marcar reuniões periódicas com o único intuito de aprimorar meu desenvolvimento e conhecimento sobre o problema.


Encontrar um nome para reuniões periódicas pode ser um desafio e tanto, mas um dia ele me chamou para tomar um café, e perguntou o que estava passando na minha cabeça. Eu disse que me sentia voando, vendo várias possibilidades diferentes, e que toda vez que tínhamos nossas conversas eu voltava a por os pés no chão, me reconectava com meu propósito, e partia novamente para mais uma jornada no problema. Dai surgiu o nome das nossas reuniões: Touch Base.


Quando comecei a trabalhar como Agile Coach, trouxe comigo a mesma rotina, um tempo para me conectar com o time. Trabalhando com vários agilistas ficava claro que cada um estava em um caminho extremamente novo, e que haviam várias possibilidades e forma para explorar o problema. Diferentemente de conversas típicas de chefes e empregados onde o foco é ver o status das entregas, o touch base é uma conversa entre colegas, onde o agilista volta à base para um reabastecimento, é um momento de reconectar-se e importar-se pessoalmente.


Hans e Pascal, não eram profissionais de agilidade, mas vinham de uma cultura extremamente horizontalizada (a cultura holandesa), que de tão horizontal não possui sequer monumentos para cultuar seus heróis, e a diferença salarial entre um C.E.O e um estagiário é relativamente baixa.


Apesar de não serem profissionais de agilidade, foram treinadores que levo como referência para vida. Com eles percebi que um Agile Coach precisa ser capaz de praticar a empatia com o time, desaprender o que sabe, se colocando ao lado dos Agilistas, e entender quais dificuldades eles estão passando.


Hans e Pascal tinham uma cultura totalmente diferente da minha, e atuaram na minha própria transformação cultural, com eles aprendi que é importante segurar a ansiedade e dar o tempo certo para que cada pessoa do time seja capaz de aprender de fato as mudanças que estamos propondo, mais que isso, é importante que elas se sintam parte da solução, e que essa solução venha delas, pois assim elas terão ainda mais vontade de manter viva a mudança.